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Por Rui Leitão: OS 22 VOTOS QUE FALTARAM

Tudo começou em 1983 com a apresentação de uma Emenda Constitucional propondo o fim do Colégio Eleitoral para Presidente da República (na verdade, o ditador de plantão), recuperando o direito do povo escolher o primeiro mandatário da Nação pelo voto direto.

03/05/2024 às 07h17 Atualizada em 04/05/2024 às 05h03
Por: Redação
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Por Rui Leitão: OS 22 VOTOS QUE FALTARAM

Quem a apresentou foi o jovem deputado do PMDB do Mato Grosso, Dante de Oliveira, até então uma figura parlamentar pouco conhecida no cenário político nacional.
 
Em princípio a ideia não foi levada muito a sério, poucos acreditavam que pudesse ser acolhida majoritariamente pelo Congresso, ainda que as eleições para Governador, realizadas um ano antes, tenham dado uma demonstração de que havia um desejo popular de enfrentar o regime de força a que estávamos sendo submetidos. Pelo voto direto, a oposição conseguiu sair vitoriosa em vários estados importantes da Federação. Isso, de alguma forma, estimulava tentar fazer com que a eleição presidencial também pudesse ser realizada pelo voto direto. 
 
Dante de Oliveira ganhou um apoio importante para dar força ao movimento político que planejara. O então presidente do PMDB, o deputado Ulysses Guimarães, decidiu caminhar junto nessa proposta. Foi o suficiente para que os parlamentares que formavam a ala progressista do partido se inserissem na campanha, que passou a ser conhecida como “Diretas Já”.
 
A partir de um debate realizado em Goiânia, em maio daquele ano, o movimento ganhou repercussão nacional e serviu como exemplo para que comícios fossem realizados nas principais capitais do país. Leonel Brizola, eleito governador do Rio de Janeiro, se integrou à campanha. O Partido dos Trabalhadores igualmente se manifestou oficialmente em favor da PEC, sob a liderança de Lula. O palanque desses atos públicos deu espaço para celebridades artísticas, culturais e esportivas, como a cantora Fafá de Belém, a atriz Cristiane Torloni, o jogador de futebol Sócrates, o radialista e escritor Mário Lago e o jurista Sobral Pinto, só para citar alguns. “Diretas Já” se tornou um movimento de grande apoio popular.
 
No dia da votação, 25 de abril de 1984, o presidente João Batista de Figueiredo decretou “Medidas Emergenciais” e designou o General Newton Cruz para comandar a repressão às manifestações populares. O Brasil inteiro amanheceu com a esperança de que voltaríamos a eleger nosso presidente da República. O clima era de tensão. Uma multidão ocupou a Esplanada dos Ministérios gritando as palavras de ordem: “1,2,3, quatro, cinco, mil! Queremos eleger o presidente do Brasil” e enfrentou o forte aparato policial montado pelo governo federal. Enquanto no plenário da Câmara as articulações políticas se intensificavam, com as galerias ocupadas por muita gente, nas ruas o ambiente era de terror, em razão das explosões de bombas e prisões produzidas pela polícia.
 
A expectativa era muito grande. Porém, quando o painel que apontava o resultado da votação foi aberto, para frustração de todos, faltaram 22 votos para que a Emenda pudesse ser enviada ao Senado. Foram 298 votos a favor, 65 contra, três abstenções e 113 ausências. A pressão do governo funcionou. A galeria reagiu com vaias. Muita gente chorava lamentando a derrota. Cinco anos depois é que pudemos voltar a eleger o presidente da República pelo voto direto, mas, com certeza, a Emenda Dante de Oliveira contribuiu decisivamente para que a redemocratização se efetivasse com a vitória da chapa Tancredo Neves-Sarney no dia 15 de janeiro do ano seguinte pelo Colégio Eleitoral. Valeu a luta. Os saudosos da ditadura militar tentaram recentemente promover o retrocesso, planejando um golpe que foi abafado pela brava ação das instituições republicanas. DITA DURA NUNCA MAIS.
 
Rui Leitão

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