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Bolsonaro pegou US$ 30 mil no dia que anunciou fim da corrupção

Pacote de dólares foi entregue ao capitão pelo general Mauro Cesar Lorena Cid; então presidente acabara de "decretar", na ONU, fim da roubalheira

10/07/2024 às 12h22
Por: Redação Fonte: ICL
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Foto: Reprodução
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Xico Sá
Escritor e jornalista, faz parte da equipe de apresentadores do ICL Notícias. Com passagem por diversas redações e emissoras de tv, ganhou os prêmios Esso, Folha, Abril e Comunique-se. Participou de programas como Notícias MTV, Cartão Verde (Cultura), Redação Sportv, Papo de Segunda (GNT) e Amor & Sexo (Globo). É autor de Big Jato (Companhia das Letras) e A Falta (Planeta), entre outros livros. O colunista nasceu no Crato, na região do Cariri cearense, e iniciou sua trajetória profissional no Recife.


Isso é cinema, absoluto cinema.

Não o cinema clássico como “O poderoso chefão”, mas um filme “B” de máfia. O roteiro é baseado em fatos reais do relatório de investigações da Polícia Federal.

Cena 1. Plenário da Assembleia-Geral da ONU na cidade de Nova Iorque, 20 de setembro de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro faz o discurso de abertura do encontro:

— No meu governo, extirpamos a corrupção sistêmica que existia no país — diz, referindo-se ao período em que “a esquerda presidiu o Brasil”.

Cena 2. Corta para um café no hotel Omni Berkshire Place, nas proximidades da ONU. Bolsonaro recebe, em uma mesa redonda, US$ 30 mil, em cédulas, do general Mauro Cesar Lorena Cid, pai do tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do presidente.

O pacote de dinheiro é resultado da venda de parte das joias desviadas da Presidência da República, segundo depoimentos do pai e do filho citados anteriormente.

A PF tem a foto (a mesma utilizada nesta página) no seu álbum do crime.

“Better Call Saul”
Agora trocamos o cinema por uma das melhores séries dos últimos tempos, “Better Call Saul”, exibida na Netflix entre 2015 e 2022.  Aqui temos as picaretagens, aventuras e desventuras do advogado James Morgan McGill ou Saul Goodman, novo nome adotado pelo farsante na quarta temporada.

Troque McGill ou Saul (papel do ator Bob Odenkirk) por Frederick Wassef, um colega de ofício escalado por Bolsonaro, em março de 2023, para recomprar nos EUA e trazer para o Brasil o relógio Rolex do “kit ouro branco”, um dos três pacotes do escândalo das joias.

O objetivo seria devolver o Rolex ao patrimônio público brasileiro antes do sumiço da peça virar crime de autoria do ex-presidente, o que seria um problemão para quem se declarou “imorrível, imbrochável, incomível” e também “incorruptível” — no caso das irregularidades na tentativa de compra da vacina Covaxin.

Monitorado pelo ex-presidente, Wassef viajou de São Paulo para Fort Lauderdale e de lá seguiu para a Pensilvânia, onde recomprou o relógio.

Em áudio documentado no relatório da PF, o próprio advogado relata como se escondia dos passageiros brasileiros nos voos e conta, para a namorada, esse momento solene vivido na presença de Bolsonaro, na Flórida:

— Era assim: um bolinho de gente lá tirando foto com ele, outro bolo igual tirando foto comigo, foi a coisa mais louca que eu vi na minha vida, cara. Isso do… isso porque eu tava do outro lado da calçada. De escondidinho, atrás de um poste pra não ser visto, mas não teve jeito. Puta que pariu! Fodeu!

Embora não tenha o charme e o glamour do picareta e anti-herói McGill/Saul, Wassef parece curtir — como o personagem do seriado da Netflix — o serviço sujo encomendado pelo ex-presidente.

Qualquer semelhança mafiosa terá sido mera coincidência? A resposta está com a PF.

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